Bad to the Bone

Este post deve ser lido ao som da mítica canção “Bad to the Bone”, de George Thorogood. O título desta música tem tudo a ver com a primeira tarefa deste projeto, pois o que eu pretendia mesmo era descascar a menina até ao osso. E o ‘bad’ da canção do George, onde é que entra aqui? Perguntam os mais atentos. Já lá iremos. Esta canção estimula-nos a soltar a veia mais irreverente de cada um de nós, e foi sob esse espírito mais wild, que ataquei o primeiro parafuso enquanto mantia o martelo em riste na outra mão, não fosse começar a passar o efeito da anestesia…

Desmontar qualquer um desmonta, o que é mau, porque quando se tem pouca experiência e se faz um trabalho com resultados logo visíveis, é fácil entusiasmarmo-nos e pensarmos que nascemos para a coisa. Nestas situações há que refrear os ânimos, pois há que ter em atenção que o que se desmonta e se desmancha é para voltar a montar, isto se tudo correr bem. Não queremos que sobrem parafusos nem peças, certo? Não queremos também estragar nem partir nada a desmanchar sem querer, pois não? Até porque, para estragar e partir já tive eu quem o fizesse e sem desmanchar nada, o que é fantástico!

Sem nunca ter feito algo parecido, fui utilizando o bom senso e tentando não me precipitar. Nesta operação, nem sei se utilizei mais a chave de parafusos ou a máquina fotográfica. Talvez ela por ela. O slogan “para mais tarde recordar” de uma conhecida marca, curiosamente também criada por um George e que marcou igualmente uma geração, serviu de mote na minha estratégia. Garanto-vos que o ditado popular “uma imagem vale mais do que mil palavras”, atribuído ao imperador e filósofo chinês Confúcio, se revelou de extrema utilidade e evitou que, meses mais tarde, eu me sentisse como ele – “confúcio”. Todas as minhas ações a desmanchar a mota, todos os parafusos que retirei, todas as fichas que desliguei, tudo onde mexi foi fotografado. “Sempre a clicar”, já dizia o outro. Hoje, digo-vos que a utilização que fiz das imagens fotografadas, foi intensiva em muitas delas.

Do mesmo jeito que procurava documentar fotograficamente tudo o que fazia, também tratei de organizar os parafusos e as peças que ia retirando. Em vez de formar uma pilha de entulho no canto da garagem, fui separando as peças por grupos onde juntava (colava literalmente com fita cola larga) um bocadinho de papel enrolado com os parafusos, anilhas, porcas… que pertenciam a essas mesmas peças. Em alguns casos rotulava ainda estes pequenos pacotes, não fosse amanhã pensar que era comida para o peixe.

Este método e organização ajudou, e muito, não só na fase inversa do processo – a montagem propriamente dita, como também no decurso dos trabalhos de conversão. Muitas vezes foi necessário recorrer às ditas fotografias para tirar dúvidas e acreditem, mesmo assim, às vezes sentia falta de uma ou outra foto “mais indiscreta”.

Confesso que tive o trabalho facilitado. Isto porque o estado em que a mota estava, especialmente o seu interior, já era por si só o resultado do trabalho de um artista com o mesmo objetivo que eu, só que muito mal-intencionado. Quero com isto dizer que não tive, por exemplo, o trabalho de remover a bateria porque já lá não me foi deixada nenhuma célula ou, desligar o controlador porque este tinha sido arrancado e deixado solto.

Morcega Unplugged, interior vandalizado

Morcega, novelo de fios

O mesmo para algumas fichas que simplesmente viram os seus cabos cortados, ou seja, face ao meu objetivo ainda me conseguiram poupar aqui alguma mão-de-obra, o que era escusado por a ‘minha’ ainda é de borla para mim. Posso dizer que nem o conta-quilómetros me deram o prazer de desligar, o que denuncia, sem dúvida, uma utilização sem deixar marca (quilométrica pelos menos).

Morcega - Quadro por tratar

Morcega – Quadro por tratar

Uma vez toda descascada, haveria que pensar por onde começar. Tinha nesta fase uma oportunidade única para dar um belo tratamento ao chassis. Não são invulgares os relatos de chassis chineses como estes que ‘cedem’. O amigo Hélder de que vos falei no meu post anterior, experienciou ele mesmo uma situação destas no eixo da roda traseira da sua mota, felizmente sem consequências. Com este aspeto em mente e com o esqueleto da Morcega ali tão disponível e a pedir atenção, confiei-o a uma empresa especialista em construções metálicas, em São Domingos de Rana. Cheguei a esta empresa por intermédio de um amigo, ou seja, recorrendo à melhor publicidade que existe, o chamado “passa palavra”. O dono da Dureza, Lda. (www.dureza.pt) era seu amigo e rapidamente tratei também de me fazer amigo do Paulo Gomes. Gente 5*, aqui que ninguém nos ouve por causa do volume do ‘bad to the bone’. Ao longo do processo de conversão, tive necessidade de fazer mais 4 visitas a estes artistas do ferro. Não por o trabalho ter sido mal executado mas por alterações que me vi obrigado a efetuar à medida que ia evoluindo. Num primeiro pedido de trabalho, confiei o chassis para um processo de reforço estrutural ao mesmo tempo que solicitei um tratamento de decapagem, lacagem e pintura que me protegesse o chassis da corrosão.

Morcega – Soldadura

Morcega - Corrosão

Morcega – Corrosão

No momento em que entrego o trabalho e começo a explicar o que pretendo, é-me apresentado o Ivanov. Apesar de falar a língua de Camões com um sotaque estranho, Ivanov com o seu nome tipicamente português importado não sei ainda de onde, deixou-me receoso quanto ao entendimento e execução das minhas explicações sobre o trabalho que pretendia. Não podia estar mais enganado. Ao longo das iterações seguintes do projeto, comprovei que me entendia melhor que eu próprio relativamente a mim mesmo!

Tento sempre não fazer juízo das pessoas por aquilo que elas aparentam ou demonstram. Mesmo assim, não deixei de ficar surpreendido com as perguntas e com a conversa conhecedora do Ivanov. Fez-me questões sobre o veículo que eu estava a montar, sobre as baterias, onde as estava a comprar… isto tudo porque ele esteve ou está ainda ligado à mobilidade de cadeiras de rodas elétricas. Não foi uma lição mas foi o reforço da máxima “não julgues as pessoas pelo primeiro contacto”. No fim deste processo em que o Ivanov foi mestre, diga-se, de tratamento e transformação do chassis, ficou ainda um desejo seu por cumprir da minha parte – passar na Dureza para lhe mostrar o resultado final, a scooter a andar. Ivanov, não está esquecido, ok?

O chassis da Morcega é o chassis da scooter a gasolina Jonway City Runner. Na verdade não há diferenças nem na carenagem para esta CI. Digamos que o chinês fez uma primeira conversão e eu uma segunda. Quando o Ivanov viu aquele chassis, abanou a cabeça algumas vezes. Quando viu bem as soldaduras começou a falar. Um trabalho mal feito e a existência de pontos de solda em locais onde não há sequer junção de metal era, na sua opinião, um trabalho que parecia até ter sido feito por crianças… o que, atendendo ao país em causa, não me pareceu naquele momento despropositado de todo.

Ficou um brinquinho, aquele chassis. O Ivanov tinha feito o seu primeiro bom trabalho na Morcega. Soldaduras reforçadas, chassis tratado e todo pintadinho.

“Mau até ao osso” foi tudo o que encontrei, nesta minha primeira etapa em que desmanchei completamente a mota com o objetivo de cuidar do seu esqueleto. Qual seria o passo seguinte? Nem eu sabia por onde começar portanto parem lá com as perguntas…

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2 Responses to Bad to the Bone

  1. Nuno says:

    Aahhhhh!…. Nasceste mesmo com uma caneta (teclado) na mão! Não deixas de me espantar com a tua destreza literária 🙂
    Uma casa começa-se sempre pelas fundações, lá está, e aqui se comprova também esta técnica milenar. Ficou a Morceguinha em boas mãos. Agora já sabes… aguardamos as cenas dos próximos capítulos 🙂

  2. Helder says:

    E começaste tu muito bem. Pela base, onde depois tudo vai crescer e desenvolver. Se esta estiver bem, é meio caminho andado para uma bela conversão.
    Perguntas, perguntas eu até fazia, mas vou respeitar o teu ultimo pedido 🙂

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