Ligar a Mota

Quando convertemos um veículo para tracção eléctrica, muitos procedimentos mudam. Um deles é a sequência “de arranque”, desde o meter a chave na ignição até o motor estar pronto a responder ao acelerador. Esta parte é importante e está intimamente ligada à segurança, especialmente quando se trata de motores com escovas; é preciso um procedimento que não permita que o veículo ligue acidentalmente (especialmente agora que nem barulho de motor tem), e que permita desligar o motor com “1 click” em caso de emergência. Aliando isto à minha vontade de re-aproveitar o mais possível as peças originais, cheguei ao que se segue…

O procedimento de arranque da mota baseia-se em tudo o que ela já tem: chave de ignição, interruptor vermelho START/STOP, botão de pressão START, interruptor do descanço e eventualmente interruptor de inclinação. De um modo simples e directo, o procedimento de arranque será: dar à chave na ignição, ligar o START/STOP, subir o descanço e finalmente carregar momentaneamente no START. No final deste procedimento, e se o controlador deixar (há razões para que possa não deixar, como um acelerador encravado), o motor está sob comando do acelerador e podemos arrancar a qualquer momento.

Na mota original com motor de combustão interna (C.I.), o botão START liga o motor de arranque enquanto está pressionado e assim coloca o motor CI em rotação, não necessitando mais da ajuda do motor de arranque para se manter ligado. Mas no caso da tracção eléctrica, o que este procedimento deve fazer é fornecer alimentação constante ao resto do sistema, mesmo depois de se largar o START. Para isto precisamos de um circuito que “se ligue com um toque e se mantenha ligado”, como por exemplo este:

Um pequeno relé é ligado pelo botão START e ao mesmo tempo o relé é usado para se “alimentar” a si próprio, mantendo-se ligado mesmo depois do botão START ser liberto. Quando o relé está ligado, o ponto V+ fica ligado ao BAT+, podendo ser usado para ligar um contactor ou alimentar outros sistemas. Para fazer o relé desligar é necessário interromper a alimentação da sua bobina, algo que o esquema simples acima não mostra. Na prática tem que haver pelo menos um interruptor que possa cortar a dita alimentação; este interruptor pode ser por exemplo o botão vermelho START/STOP, mas já lá vamos.
O díodo serve para cortar os transientes de tensão criados quando o relé desatraca e a sua utilização é uma técnica standard. Este relé pode ser um simples relé auto de 12V, se a bateria onde está ligado for de 12V – o que é o caso do sistema em que estou a trabalhar.

Por motivos de segurança não queremos que a mota fique pronta para andar só por carregarmos no botão START. Temos então que introduzir alguns interruptores de segurança que têm que estar ligados para que o START funcione (e que podem ser usados também para desligar o relé). Cada um destes interruptores é uma segurança adicional que impede que a mota seja ligada acidentalmente. Um esquema completo poderia ser assim:

Para simplificar as ligações substituí o negativo da bateria auxiliar de 12V pelo simbolo de “massa” no esquema. Em série com a bobina do relé temos agora os 4 interruptores já mencionados no inicio do artigo: a chave de ignição no lado do positivo da bateria e os restantes no lado negativo. Reparem que só quando estes interruptores estiverem todos ligados é que o START pode activar o sistema.

Depois do relé ligado, se abrirmos qualquer um dos interruptores ele desliga e o contactor também, cortando a energia ao motor. Se de seguida voltarmos a fechar os interruptores, será necessário novamente carregar no botão START para que o relé volte a ligar, resultando assim em segurança acrescida.

No esquema o ponto V+ faz acender uma pequena luz (um LED) “POWER ON” no painel de instrumentos e deixa a tensão positiva da bateria auxiliar (12V) chegar à bobina do contactor. No entanto este só liga quando e se o controlador o permitir, pois controla a ligação da bobina à massa. Só depois do controlador verificar que está tudo bem, do seu ponto de vista, é que irá deixar ligar o contactor. VBAT+ é o positivo da bateria de potência da mota, a que fará realmente a mota andar.

Já fiz um teste deste esquema em pequena escala na Trike do Vasco e funciona bem, mas tenho pensado nele e acho que ainda pode ser consideravelmente melhorado introduzindo mais um interruptor: o da embraiagem. A ideia aqui é colocar o interruptor da embraiagem (que alguns veiculos têm) em série com o botão START, de forma a que seja preciso carregar no START e na embriagem ao mesmo tempo para ligar a mota (depois de todos os outros interruptores já estarem ligados). Isto pode evitar situações como a seguinte, ainda que remotas: 1) desligamos a mota em emergência no START/STOP porque o acelerador prendeu, 2) o START/STOP é ligado novamente por acidente ou por uma outra pessoa, 3) pressionamos por acidente o START enquanto nos apoiamos no guiador para apanhar um papel do chão e a mota sai disparada. Envolvendo a embraiagem no procedimento de activação a segurança é consideravelmente aumentada. O que vos parece?

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5 Responses to Ligar a Mota

  1. Sérgio Duarte says:

    Embora os meus conhecimentos não me permitam entender o funcionamento completo do esquema apresentado, percebi os objetivos pretendidos e concordo que a conjugação da embraiagem com o botão start é uma segurança acrescida e que em nada chateia o normal acto de pôr o veículo em funcionamento.

  2. Eduardo Ferreira says:

    Eu também penso que a dita “embraiagem” é útil. Já me sucedeu, algo parecido e seria mais um elemento de segurânça.
    É assim que eu entendo a evolução.
    Bela explicação para leigos com eu!

    BondadeSua

    • Nuno says:

      Pois, por mais que pensemos que não, “coisas estranhas” acontecem, daí que convém ser relativamente díficil activar o sistema, mas ao mesmo tempo sem tornar o procedimento numa chatice.

  3. Helder Pereira says:

    Bom, muito bom!
    Segurança nunca é demais.

  4. Vasco says:

    Muito fixe. 🙂
    Não tenho nada a declarar, tá mesmo bem explicadinho!! 😀

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