Descascar a fruta – parte 2

Depois de tirar a maior parte da pele, as atenções viraram-se para a extracção dos restantes sumos, vulgo fluidos. Quanto mais leve ficar o motor mais fácil será tirá-lo. Além disso, para o tirar é preciso remover tubos que deixarão de segurar alguns destes fluidos, como o de refrigeração. Este caminho daqui para a frente tem como objectivo remover o motor; um a um vão-se removendo os cordões umbilicais que o unem ao corpo da mota. Mas vamos lá cortar mais alguns…

No final do projecto terei acabado por desmontar quase tudo, se não mesmo tudo, desta mota. Tratando-se de um veículo em 2ª mão já com mais de uma década, e sabendo os “bons” tratos que estas motas geralmente levam, impõe-se uma revisão completa. Até os parafusos mais importantes serão revistos. Não quero ter tudo montado já em eléctrico e ter que desmontar meia mota por causa de um parafuso que estava em mau estado e partiu – ou pior, ele partir-se comigo lá em cima. Daí que aos poucos a fruta se vai transformando em casca, sumo, polpa e sementes, é só continuar a descascar. E continuamos, com um ponto alto em qualquer conversão :D…

Anda que já cá tás (4,78 Kg) fora :)!!!!… A parte mais complicada desta operação foi soltar 2 molas fortes que seguram a boca do balão de escape ao motor. Enfim, apenas falta de prática. De resto, além das molas são só 2 parafusos.

As entradas e saídas do motor devem ser bem tapadas para não entrarem objectos estranhos ao serviço. Quanto melhor ele estiver mais vos irá render na venda por inteiro ou às peças, permitindo recuperar parte do investimento na compra da mota. Por isso não convém desmontar nada destrutivamente (a não ser que seja mesmo suposto ser assim, como no caso de alguns freios e presilhas) pois mesmo que não vá servir pode sempre ser vendido.

Entrada de ar do carburador protegida por plástico e abraçadeira

À medida que vamos desligando fichas e soltando cabos devemos certificar-nos que não ficam em locais incómodos. Às vezes ficam naturalmente pendurados e outras vezes somos nós que os penduramos “algures” para não empatarem. O problema é que quando ficam perto de peças móveis como rodas, podem ficar presos ao movermos a mota. Muitas vezes o melhor é agarrar numa abraçadeira (zip-tie) e prendê-los nalgum local seguro.

O 2º fluido a sair (depois do óleo do motor) foi o da refrigeração. Este liquido também é “especial” porque pode conter glycol – uma substância liquida que arde sem se ver e bastante tóxico se ingerido. Atenção a crianças, animais e fontes fortes de calor por perto. A drenagem do refrigerante faz-se desapertando a tampa do depósito do refrigerante (0,14 Kg) para não criar vácuo e um parafuso no motor.

Depósito de refrigerante e suporte da bateria

Desapertei o parafuso só um pouco e fui recolhendo o liquido numa tina de aluminio (uma bandeja de levar ao forno :)), que fui despejando para uma garrafa de plástico. Quando parecia que já não havia mais, inclinei bem a mota para um lado e para o outro e saiu mais um bom bocado. É boa política marcar bem estes recipientes como contendo produtos perigosos.
Depois disto o radiador (1,02 Kg) saiu facilmente, bastando tirar 2 parafusos e as 2 abraçadeiras dos tubos. Uma bela peça, toda em alumínio. A tubagem (0,3 Kg) também saiu; para facilitar a operação removi o suporte da bateria (0,14 Kg) desapertando 1 parafuso. Selei a entrada e a saída do refrigerante no motor.

Radiador – 2 apoios em baixo e 1 parafuso em cima

Num outro dia tirei mais um flúido: óleo da caixa de velocidades. Mais uma vez uma saída vedada por parafuso serve de dreno. Uma operação simples mas feita com cuidado para não entornar uma única gota de óleo. Existem locais próprios para o largar, a ele e aos outros fluidos, pois estes “amigos” não são nada amigos (consultem a vossa Câmara Municipal).

E finalmente chegou a vez do último flúido: a gasolina. Com a torneira do depósito fechada, comecei por soltar o carburador (0,53 Kg) do motor, que se faz retirando uma abraçadeira.

Carburador ainda preso ao motor

Aí soltei todos os cabos e tubos (acelerador, “ar” e óleo) excepto o da gasolina. Para soltar este último coloquei a tina de alumínio por baixo porque podia sair gasolina presa no tubo e mantive o garrafão de recolha por perto (recipiente plástico especial para conter gasolina, comprado numa grande superfície). Muito devagarinho desapertei o tubo e… só saiu lixo. Nem uma gota de gasolina, estava tudo seco e apenas lá estava algum lixo acumulado no filtro.

Lixo no filtro de gasolina do carburador

Voltei-me então para o depósito. Abri a tampa e meti dentro do garrafão o tubo que soltei do carburador; depois abri a torneira e… mais uma vez, nem uma gotinha. Tinha ficado com a ideia de que ainda havia alguma gasolina no depósito, mas ou não havia ou o vendedor, sabendo dos meus planos, recolheu o precioso liquido antes de me entregar a mota. Espreitando pela tampa ainda se via um fio de húmidade no fundo, mas era oleosa. Ainda deu também para ver que o filtro normal de recolha da gasolina andava solto lá dentro – esta mota de certeza que já não tinha a reserva, além de que o filtro solto também ajuda a explicar a quantidade de lixo no filtro do carburador.

E contínua no próximo episódio 🙂

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2 Responses to Descascar a fruta – parte 2

  1. Pedro S.João says:

    Agora é que a fruta começa a ficar sem casca..

    “um a um vão-se removendo os cordões umbilicais que o unem ao corpo da mota”
    Poético! Adorei esta expressão! eheh 😉

    Bom trabalho! E não encontraste uma gota de gasolina? … ainda bem! afinal, não vais precisar dela! 🙂

    Continua..!

  2. Sérgio Duarte says:

    Excelente! Quase que se consegue imaginar a Aprilia a ficar despida. Com tanto descascar, já quase só resta o caroço…

    Abraço e continuação de bom trabalho.

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